O Vazio Regulatório: Quando o Direito à Saúde Não Alcança o Jardim


A recente reunião da Diretoria Colegiada da Anvisa em janeiro de 2026 desenhou um mapa para o futuro da cannabis no Brasil: o caminho é industrial, rastreável e altamente regulado. Ao consolidar o cultivo para fins medicinais sob o rigor de Autorizações Especiais (AE) e georreferenciamento, a agência enviou uma mensagem clara sobre quem são os convidados para essa nova economia. No entanto, para os leitores que buscam a soberania de seus corpos através do saber ancestral e do cultivo doméstico, o documento revela que o Estado ainda prefere a tutela à liberdade.

A Institucionalização do Cuidado e a Exclusão do Indivíduo

Vimos o setor industrial ser contemplado com a possibilidade de nomes comerciais e as farmácias magistrais conquistarem o direito de manipular o CBD isolado. Até mesmo o "Sandbox Regulatório" foi desenhado para arranjos produtivos associativos.

Contudo, o usuário individual, aquele que detém o conhecimento tradicional de extração e o manejo da planta em seu quintal, permanece em um limbo jurídico. O documento foca na "porteira para dentro" sob a ótica do agronegócio e na "fatia de mercado" sob a ótica farmacêutica. Ao ignorar o auto-cultivo, a regulação mantém o indivíduo dependente de uma cadeia de consumo, seja ela vinda de uma grande indústria ou de uma associação, ferindo a perspectiva contra-colonial de autonomia sobre a própria vida.

O Saber Ancestral vs. O Rigor Asséptico

É simbólico que vozes como a de Cidinha que pontuou que o associativismo nasceu de um "estado de necessidade" e de uma luta contra o racismo estrutural. As associações resgatam que a planta é uma ferramenta de reparação histórica. Entretanto, quando a Anvisa propõe que o "Sandbox" seja um instrumento de "contenção de risco" e "produção de evidências", ela tenta enquadrar práticas milenares de extração em réguas sanitárias que, muitas vezes, são inacessíveis para o cidadão comum.

A ciência, aqui, é usada como um filtro que valida o que pode ser comercializado, mas que deslegitima o que é produzido pela mão do próprio paciente. Ao priorizar o CBD isolado em detrimento das matrizes vegetais complexas por uma questão de "reprodutibilidade" , a regulação se afasta da riqueza fitoterápica que o saber tradicional defende como superior.

A Segurança Jurídica que Não Cruza a Calçada

O voto do Diretor Thiago Campos fundamenta-se na uniformização da lei para evitar o "casuísmo judicial". Mas para quem fica a segurança jurídica quando as associações ainda relatam invasões policiais e destruição de genéticas medicinais, como o caso dramático da Mama Flor?.

Se a Anvisa agora admite o cultivo regulado como estratégia de soberania, por que o cultivo doméstico para uso próprio continua sendo tratado como um não-tema? A resposta parece residir na lógica de um sistema que só reconhece a saúde quando ela gera dados para o mercado ou para a academia, ignorando que o ato de plantar é, em si, um gesto político e terapêutico de resistência ao capital.


A regulação de 2026 é, sem dúvida, um avanço para o acesso formal, mas precisamos refletir: até que ponto estamos trocando a criminalização pela burocratização do cuidado? Enquanto o auto-cultivo não for pauta, a planta continuará sendo reconhecida pela agência, mas o direito pleno do usuário sobre ela ainda estará sob o solo da incerteza.

Como vocês, apoiadores do nosso trabalho, enxergam esse novo cenário? Acreditam que o "Sandbox" pode ser um primeiro passo para a liberdade individual ou é apenas uma nova forma de controle? Comentem abaixo.


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